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Sunday, May 15, 2005

Estudo sobre os símios erectus

Depois de uma jogatina de matraquilhos e farturas, decidi ver outras coisas. Sempre passeando e bebendo nos mesmos sítios, descobri que existem espécies que habitam a minha cidade e que eu desconhecia por completo. Como viajar para conhecer, por vezes é preciso sair do circuito normal e ver a fauna que pulula por aí.

Decidi ir ao La Movida. Movida de sentido crítico e vontade de aprender, tentei perceber o que leva seres humanos aparentemente normais - mas mal vestidos - a comportarem-se como símios. Percebi, após pouco tempo, que não são seres humanos. São mesmo símios que, normalmente, circulam em duas patas, se bem que existem momentos em que regressam ao formato de quatro.

As despedidas de solteiras multiplicavam-se. São rituais que obedecem a ritos próprios. Comecemos por estes seres e sua matilha.

Elas são obrigadas a equilibrar na cabeça objectos fálicos. Pressupõe-se que no futuro acasalmente depois do casamento assim seja: objectos fálicos na cabeça, pois então. Daí se perceba que a reprodução desta espécie tenha caído drasticamente. A bem da nação, tal é um bom augurio.

É evidente que este grupo não paga impostos. É também evidente que 80 por cento não tem qualquer tipo de actividade laboral fixa. Mas mais grave é o que a matilha tenta fazer ao símio casadoiro. Equilibrando o objecto fálico na cabeça, ela é posta em cima de um balcão onde dois homens (com objectos fálicos pequenos) em tronco nu simulam actos sexuais com a nubente. Esfregam-se durante vários minutos, não estando associada ao movimento qualquer tipo de reacção física. Estranhamente parecem prontos a acasalar, mas é puro engano: eles são pagos - por outra espécie, esta mais inteligente que vivem à custa deste símios - para terem esta atitude com todas as símias casadoiras.

As amigas incentivam. Algumas filmam. É uma atitude de matilha, como uma multidão cobarde. A proximidade leva-as a desejar mal à símia que vai casar em detrimento delas mesmas. Do ponto de vista de David Attenborough, esta seria uma reacção estranha, mas enquadra-se na fórmula: «cabra, vais casar vou-te fazer sofrer agora». É evidente que nestes rituais há alcool e mesmo drogas libertadoras dos comportamentos sociais. No entanto, esta espécie não tem qualquer tipo de limite nas suas atitudes, nem qualquer tipo de peias morais.

Outra das espécies é o símio masculino novo. Este sabe dançar e conhece de cor coreografias próprias da raça dos símios, fáceis de decorar. Passam várias horas fazendo quase sempre os mesmos gestos, variando apenas ligeiramente nos movimentos. É um ritual de acasalamento, no entanto com pouco efeito.

Senão vejamos: «sacar» uma símia neste espaço demora mais ou menos 30 segundos. Contudo, os símios mais novos deparam-se com diversos problemas: a oferta é tão grande que baralha; a existência de poucos circuitos cerebrais faz com que mais do que duas hipóteses transformem a situação numa equação de segundo razão sem fórmula resolvente.

Mais: a disponibilidade das símias - que parecem ter voltado à posição de quatro, regredindo na evolução várias milhares de anos - é um pouco inibidora, já que elas demonstram demasiado cio.

Os machos mais novos têm ainda que lidar com conjuntos de símias, que devem cobrir: normalmente, estas associam-se em três ou quatro e é necessário encontrar macho em número suficiente. Normalmente, os símios surgem apenas aos pares. Mas um dos sinais mais preocupantes da espécie passa pelo excesso de movimentos semelhantes ao acto de dançar: eles entusiasmam-se no ritual de acasalamento e apenas dançam a noite toda, ignorando-as quase por completo. Este entusiasmo desmedido transforma o ritual de acasalamento em solo pouco fértil. O excesso de cansaço por horas de dança - e a pouco endurance da espécie - faz com que, no dia seguinte, as símias estejam deprimidas pela frustração.

Neste espaço, pululam ainda símios mais velhos. Estes são necrófagos, habituados aos restos de final de noite. São a espécie mais apagada, habituada a descansar nos cantos do recinto durante a noite, atacando a presa quando esta está já cansada e bebeu em demasiada.

Outra das espécies existentes são os machos que se dirigem ao local sabendo da disponibilidade da fêmea. Estes são os mais parecidos com os humanos: procuram o acasalmente e não perdem tempo com o ritual. Aliás, um momento absolutamente dispensável pelas próprias símias.

Por vezes, surgem espécies outras. Não se enquadram neste estudo, porque surgem no local quase por engano. São meros observadores e saem cedo. Não se misturam e temem as símias desinibidas. Rapidamente, procuram a porta. Os seres humanos femininos que não procuram acasalar são mal vistos pelo resto das espécies. São considerados elementos estranhos e rapidamente banidos.

Felizmente, estes espécies não acasalam fora do seu meio. Não há ainda perigo de contágio se os seres humanos se mantiverem à distância, anunciou hoje a Direcção Geral de Saúde.

9 Comments:

Blogger Bastet said...

Bela passeata ao Planeta dos Macacos :)

9:54 PM

 
Blogger T? said...

LOL!! Grande posta.

Insultuosa, mas grande posta.

;)

Kiss

2:55 PM

 
Blogger Malapata said...

tu gostas de ver em circus animais? Isso não pode! Desculpo.

5:54 PM

 
Blogger Malapata said...

o que quero dizer é: macacos não pode ser mausestratos como outras animais! Tu não concorda com isso?

3:51 PM

 
Anonymous Anonymous said...

Bravo!
Por momentos identifiquei-me com uma das espécies que tão bem retrataste. Mas assim que cai em mim percebi que estou longe de o ser. Nada de confusões!

É claro que isso só aconteceu depois de me afagarem o ego.
Continua com as expedições.

ego

3:14 AM

 
Blogger Judite said...

Expedições serão para continuar, mas em pequenas doses. Quanto à proximidade das espécies... Há dias em que somos um bocado de tudo. Depende da quantidade de álcool...
PS: Mas nem mesmo muito álcool nos transformariam em símios deste calibre. Espero eu.

2:42 PM

 
Anonymous other said...

também gostei do post. Essa ideia de ver de fora o homo sapiens é curiosa.
Muito da vida do ser humano tem a ver com o acasalamento. Até nos blogs isso se vê.
Fase um : A Fêmea expoe-se, apresenta-se.
É a fase rubra.
Fase dois : A Fêmea arranja, encontra macho. Aí fecha o blog.
:)))

Isso repete-se uma e outra vez. O Blog dura o tempo que leva a encontrar macho.
Uma vez encontrado este acabaram-se as confusões e a femea volta a ser recatada até ficar só, de novo.
Aí regressa a fase rubra.

5:30 PM

 
Blogger Judite said...

Não sabia que isso era assim. Abrir blogues para contrair matrimónio.

Mas encontrei isto no Aviz. «Lurdes Mateus, 35 anos, bibliotecária, que nos fala de Torres Vedras: «Eu conheci o meu marido na caixa de comentários do Barnabé.»

muitas felicidades

9:42 PM

 
Anonymous Anonymous said...

Mas quem é que conhece alguém na caixa de comentários e logo do BARNABÉ?????

12:02 PM

 

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