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Wednesday, August 17, 2005

Resposta a um comentário e a história que eu ia contar em formato de carta. Para a Carla

Carlita,

Eu não quero brilhar.
Só não quero ser a única a sair do carro.
Só não quero ter no banco de trás um taco de basebol, porque tenho medo de não me conseguir «virar» sozinha.
Porque é assim que estamos na grande cidade: sozinhos.
O povo não evoluiu.
Regrediu em toda a linha.
Vive a vidinha a tentar encontrar o melhor crédito para casa, carro e tv de plasma, mas não dá a mão a quem precisa.
E era só sair do carro.
Éramos muitos.
Teríamos conseguido fazer algo.
Eu estava só.
Era só uma.
O sacana que espancava a mulher como se de um saco de boxe se tratasse tinha mas de 1,85.
Era grande para mim.
Por sorte, parou.
Por sorte, ficou sentado após o primeiro encontrão.
Mas podia não ter ficado.

E nessa altura, um ser humano podia ter sido espancado até à morte, com o sol de Agosto nas folhas do jardim, e os cidadãos de classe média com um trela pela mão a olhar para o lado, em plena rua central da cidade do Porto.
Ele não retaliou.
Eu não me magoei.
E dormi mal essa noite. Muito mal.
Não por ter visto alguém bater num ser humano: tenho idade para já ter visto isso e mais.
Mas porque ninguém se levantou contra a violência.
Porque todos foram cúmplices com a violência. Poderiam ter sido cúmplices com homicídio.
Este povo não presta.
Este país é uma merda.
É a primeira vez que me ouves dizer isto: eu, a da nação e pátria e Estado. E o raio que parta.
A glória, a fibra, a verticalidade, a moralidade, a alma de um país vê-se nas ruas.
Há anos, poucos anos, mais pessoas teriam sido de carro.
Hoje não.
Fez-se o clique.
Passei ao ódio. E ao nojo.

3 Comments:

Anonymous Mente Despenteada said...

O brilho não é relativo, sabes? Tu brilharias sempre, como aquelas estrelas pequeninas, que brilham mesmo quando o brilho das grandes as ofusca. Tu tens a tua luz própria, que se sente, que é vibrante e que faz de ti uma estrela. Podes ser uma estrela pequenina, tímida... Mas és uma estrela que brilha sempre. Conheces de certeza a história de David e Golias, e outras assim. Às vezes, os pequeninos puxam os grandes. Às vezes defrontam-nos, confrontam-nos. E às vezes vencem batalhas desiguais, em que ousaram gritar de igual para igual com o que era visivelmente maior. Mas o importante de tudo isto é q essas estrelas pequeninas nunca parem de brilhar, e nunca parem de acreditar q brilham. E tu brilhas!

7:14 PM

 
Blogger Judite said...

Obrigada pelo elogio, pela força, pela tua palavra amiga, sempre presente. És a prova de que a distância não quebra laços. Os que interessam, os que se deveriam manter. Quanto ao brilho... se alguma vez o tive (nos teus olhos, pelo menos) ficou naquele passeio, espalhado, despedaçado. Foi trocidado pelos pontapés e não restaurado pelo carro da polícia que apenas pode prender quem bateu. Não os cúmplices que assistiram impávidos.
Beijos do meu tamanho para ti.

Espero que o teu brilho também não se apague pela desilusão que o caminho nos vai obrigando a beber.

7:32 PM

 
Blogger portugal da silva said...

...deslumbrante este seu testemunho!
Não desista, há ainda cá gente suficiente para não submergirmos como povo com essas características que refere...

3:04 PM

 

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